KANONARA

Estrutura da história

Personagem-tipo (stock character)

Personagem-tipo é a figura que a audiência reconhece de imediato, a donzela em apuros ou o tolo sábio: um tipo pronto, reusado entre histórias e tradições.

Uma personagem-tipo é um tipo de personagem que as audiências reconhecem "através de muitas narrativas ou como parte de uma tradição ou convenção de contar histórias", em qualquer mídia, do romance e da peça à televisão e ao cinema, com uma faixa que atravessa idades, classes sociais e temperamentos: a donzela em apuros e o Príncipe Encantado, o cavaleiro andante e a bruxa. Contra o arquétipo, o artigo desenha a diferença em grão, e não em natureza: abre oferecendo arquétipo de personagem como outro nome para o tipo, depois insiste que os termos não são sinônimos, e os exemplos dele mostram por quê, já que o arquétipo básico nomeia o papel largo (o herói, a figura paterna) enquanto a personagem-tipo nomeia a figura específica que uma tradição fixou (a donzela em apuros, o tolo sábio). Ambos são matéria-prima sobre a qual os autores constroem personagens de carne e interessantes; o estereótipo e o clichê são as versões degradadas que o artigo arquiva sob escrita ruim ou pensamento raso. A história que o artigo dá é um desfile de tradições, e não uma linha única desde a antiguidade: o alazon, impostor e fanfarrão autossugestionado, contra o eiron, autodepreciativo e modesto; a mulher que chora de The Troublesome Reign; a professora de escola da fronteira colonial, personagem-tipo da literatura e do cinema australianos e americanos, um foil ideal para um herói incivilizado ao lado da solteirona de Boston, da prostituta de coração de ouro e da esposa de fazendeiro sofredora; e o cinema americano refundindo os tipos por década, as vendedoras de cigarros e os vendedores de gelo cedendo lugar às madames de sacola, com a televisão, de cronograma apertado, tomando emprestados inteiros os tipos do cinema.

Para romancistas, a personagem-tipo é reconhecimento banqueado de antemão: um conjunto particular delas identifica um gênero, então cavaleiro andante mais bruxa lê como conto de fadas ou fantasia, e, como a audiência já entende a figura e as motivações dela, a história anda sem apresentação. A regra de Dwight V. Swain, conforme o artigo a relata, é que todas as personagens começam como personagens-tipo e ganham carne só até onde a trama precisa; o ofício é escolher até onde desenvolver e quando subverter, porque as expectativas construídas sobre o tipo podem ser convertidas em suspense, ironia ou reviravolta, do jeito que roteiristas dos anos 2000 fizeram personagens aparentemente-tipo agirem contra o tipo, enquanto uma figura deixada toda em tipo despenca no estereótipo. Este glossário está abastecido delas: a pessoa comum, a femme fatale e o cientista louco se apresentam abertamente como personagens-tipo, e a entrada do trickster chama a forma moderna dele de arquétipo de personagem, as duas palavras apontando para a mesma prateleira. O tipo em si é livre de reusar: tribunais dos EUA decidiram, em Nichols v. Universal Pictures (1930), que os direitos autorais não podem ser estendidos às características de personagens-tipo. O reconhecimento é o dado; a carne é o trabalho.

Fontes

Veja também